EM BUSCA DO TEMPO ROUBADO
Secularmente, a passagem do dia foi medida pelo lento deslocamento dos astros. Hoje, a interface do mundo clareia e anoitece regida pela modulação do brilho das telas, simbolizada por um pequeno sol nos aparelhos de celular. Em um estranho paradoxo, temos o dia disposto na palma da mão, enquanto a experiência do seu desdobrar escorre entre os dedos.
Em busca do tempo roubado se dedica a abordar distintas formas de temporalidade em contraposição ao mundo 24/7 — aquele no qual nos distanciamos da realidade sensível à medida que habitamos, grande parte das horas, zonas digitais cujas telas, sempre lisas e limpas, simulam uma temporalidade para a qual as marcas do tempo nunca chegam. Ou ainda: aquele que se descortina a partir de dinâmicas ininterruptas de estímulos, que acabam por nos fazer reféns de uma constante atenção distraída.
Os três núcleos que compõem a exposição se apresentam como capítulos de uma espécie de pedagogia do tempo.
O herói como garrafa propõe um deslocamento da centralidade do imaginário heroico ao privilegiar o ordinário. Em A teoria da bolsa de ficção, Ursula K. Le Guin (1929-2018) faz menção a um glossário inventado por Virginia Woolf (1882-1941) no qual a palavra “herói” é substituída pelo termo “garrafa”. Tal operação encena um gesto crítico à reincidência da tônica heroica nos modos de contar histórias. Assim, a atenção ao ordinário recolhe, no tecido dos dias, as narrativas mínimas e as possíveis surpresas que habitam as malhas do comum.
Em Frequência dos hábitos recordamos que, na repetição dos gestos mais banais — escovar os dentes, riscar um fósforo, cortar uma fruta — podem habitar desvios inauditos. Assim, a repetição surge como recurso poético que aponta para o cotidiano como campo de invenção e subversão.
Já em A pele do tempo, o tempo se revela por sua densidade, menos como medida homogênea cronometrada e antes como matéria sensível. E se a pedra fosse uma metáfora para o relógio? Como mediríamos as horas? Tal pergunta parece sugerir a existência de fusos horários próprios a cada matéria, desobedientes às cronologias já catalogadas.
Luisa Duarte – curadora
Daniela Avellar – curadora assistente
Lucas Alberto – curador assistente
Obras

Aladim e seu capitão, anos 1990
acrílica e tinta metálica sobre tela
151 x 75 cm

Luisa Brandelli
Perfect Lovers, 2025
miçangas e linha de costura sobre lã
150 x 250 cm

Eleonore Koch
Sem título, 1966
têmpera sobre tela
62 x 84,5 x 3 cm

Iberê Camargo
Carretéis, 1958
óleo sobre tela
65 x 92 cm

Sem título, 1964
têmpera e nanquim sobre papel
aprox. 33 x 31,5 cm (cada)

Lidia Lisbôa
Sem título, da série Cupinzeiros, 2022
porcelana
87 x 35 x 24 cm

Guga Szabzon
Torça, 2024
costura sobre tecido
138 x 115 cm

Fontes Fontes, 2016
caixa de madeira, relógio de alumínio e plástico,
números cortados de pvc
20,5 x 20 x 4,3 cm

Carlos Garaicoa
La ciudad vista desde la mesa de casa, 2001
impressão em papel de algodão
86 x 54,5 cm
Ed.: 3 + 2 A.P.

Daniel Frickmann
Mensagem 4, 2025
óleo sobre tela
15 x 12 cm

Celeida Tostes
Sem título, déc. 1970
cerâmica e ferro
130 x 130 cm

Laura Lima
Disco Voador #33, 2025
vidro, vidro temperado, louça, aço galvanizado, aço inox,
alumínio e pedra
110 x 80 x 50 cm
Vistas da exposição





























