Lá e cá: deslocamentos construtivos
A exposição coletiva que encerra o programa de 2025 da FLEXA, sob direção artística de Luisa Duarte, propõe um diálogo entre diferentes gerações da arte brasileira, reunindo obras de Hélio Oiticica (1937–1980), Lygia Pape (1927–2004), José Damasceno (1968) e Emmanuel Nassar (1949). Texto crítico de Moacir dos Anjos acompanha a mostra, que tem como centralidade a forma como esses artistas transformam a herança construtiva e concreta em linguagem viva, atravessada pela cor, pela inventividade, pela presença do corpo e pela dimensão sensível.
A exposição constrói uma paisagem intergeracional na qual se revela a capacidade da arte brasileira de se relacionar com o passado em uma chave de invenção e de desvio. Como escreveu o crítico cubano Gerardo Mosquera: “ (...) é significativo que os dois clichês que tendem a ser impingidos à arte brasileira pareçam antitéticos: construtivismo e sensualidade, grid e corpo. No entanto, eles coexistem em interlocução, dialogando e transformando-se mutuamente.” Essa coexistência, entre o que se estrutura e o que vibra, entre o que é da ordem do cálculo e o que é da ordem do afeto, é algo que atravessa o diálogo entre os quatro artistas aqui construído.
Lygia Pape propõe uma investigação da forma que ultrapassa a racionalidade construtiva. O rigor geométrico é, em sua obra, atravessado por intervalos e sensibilidades. Suas estruturas, sobretudo as nomeadas “livros”, evocam o tempo e o corpo, estimulando uma abertura perceptiva. Nelas, a cor e o ritmo operam como elementos de uma poética que dissolve as fronteiras entre cálculo e intuição.
Em Hélio Oiticica a passagem entre ordem e desvio também se anuncia. Partindo de estruturas seriais, como os Metaesquemas o artista desloca progressivamente a pintura para o espaço, libertando-a do plano e da rigidez construtiva, como acontece nos Relevos espaciais. O gesto de Oiticica não nega o concreto, mas o atravessa, é no movimento que o trabalho encontra vitalidade. A forma, aqui, se torna campo de experiência, um modo de pensar a cor como matéria viva.
Nas obras de Damasceno e Nassar, essa herança é retomada por outras vias. Ambos deslocam objetos e signos da vida ordinária, instaurando novas lógicas perceptivas que oscilam entre o familiar e o estranho, o rigor e o improviso. Dessa forma, os trabalhos reunidos para essa mostra mobilizam constantemente tanto um estado de surpresa, quanto de paradoxo, em que cor, linha e cotidiano tornam-se agentes de um olhar sensível. A geometria, fio condutor da exposição, é compreendida como um campo dinâmico, permeável à experiência e ao gesto.
A mostra reafirma, assim, a vitalidade da arte brasileira em seu modo singular de metabolizar influências, expandindo-as em direção à vida. Nas palavras de Mosquera: “Não obstante, este caso único de influência do concretismo sobre um dos mais ricos cenários da arte atual se tem manifestado mais pela forma como os brasileiros o contestaram, desorganizando-o com grande inventividade, do que como o seguiram.”
Obras

José Damasceno
Escultura Borracha, 2013
serpentinita
13 x 82 x 28,3 cm

Emmanuel Nassar
Tapume, 2009
óleo sobre tela
díptico
180 x 180 cm

José Damasceno
Nexo, 2024
aço, ferro e jaspe
215 x 32 x 12 cm

Emmanuel Nassar
Chapa2314, 2023
esmalte sintético sobre chapa metálica
90 x 90 cm

Metaesquema, s.d.
guache sobre papel
51,5 x 62,5 cm

Sem título, da série Livro do Tempo, 1965
tinta automotiva e têmpera sobre madeira
50 x 50 x 10,5 cm

Relevo espacial A17, 1959/1991
acrílica sobre madeira
76 x 156 x 9 cm

Sem título, da série Tecelares, 1954
xilogravura sobre papel japonês
44,6 x 32,5 cm

Livro da Arquitetura nº II, 1959/1960
papel cartão e materiais variados
30 x 30 x 21 cm (cada)

José Damasceno
Condensador cromático, 2025
lã, vidro e moldura de madeira
47 x 66 x 16 cm

Amazonino, 1992
tinta automotiva sobre ferro
200 Ø 100 cm cada (díptico)

Emmanuel Nassar
Azul, 2020
acrílica sobre tela
130 x 130 cm
Vistas da exposição

























