Carnavalizar: método e invenção
Em vez de partir do substantivo, esta mostra escolhe o verbo. Carnavalizar, no Brasil, é um gesto que implica um método, uma prática inventiva fundada na presença, no improviso e na alegria em seu sentido mais radical. Afastando-se da perspectiva documental, a presente exposição encena um carnaval quase abstrato, elaborando antes um repertório de estados e ações que podem se articular de forma direta ou indireta aos elementos da festa.
Segundo a historiografia, o carnaval chega ao Brasil importado da Europa e se estabiliza próximo ao formato que conhecemos hoje depois da Guerra do Paraguai, em torno de 1870. Seus antecedentes mais distantes remontam aos festejos dedicados a Dionísio, o deus grego do teatro e da alegria. No século XV, a Igreja Católica incorpora tais celebrações à sua liturgia. A primeira transfiguração ocorre com as procissões de flores na Espanha, os bailes de máscaras na França e na Itália e a fixação de datas cristãs para o evento. Em Portugal, soma-se outra modalidade, os festejos brincalhões e enérgicos, que chegam ao Brasil colônia.
Durante três séculos, assim se celebrou em terras brasileiras até que, no século XIX, a corte portuguesa impôs um carnaval “civilizado”, com desfiles de carruagens e bailes de máscaras importadas. No início do século XX, porém, a mudança decisiva surge das camadas populares, sobretudo das comunidades negras urbanas. Como sublinha Lélia Gonzalez, povos afro-diaspóricos perceberam no carnaval um espaço possível para reconstruir referências culturais obliteradas pela escravidão. A resposta por meio da festa à violência colonial foi, segundo a autora, um “duplo ajustamento”: resguardar valores africanos enquanto se inventava uma linguagem nova. Nesse movimento, o carnaval europeu se desfaz e se recompõe: a herança cristã é reelaborada por ritmos vigorosos.
As escolas de samba, organizadas no Rio de Janeiro no fim dos anos 1920, são o exemplo mais contundente: organizações forjadas nos morros e subúrbios, onde o samba urbano se afirma como expressão coletiva e insurgente, ao mesmo tempo que cultivam uma dimensão profundamente comunitária. Paralelamente, florescem inúmeras formas de invenção: os bate-bolas dos subúrbios cariocas, com seus trajes exuberantes e as ruas transformadas em arena de brincadeira; os maracatus e clubes de frevo pernambucanos, cujas coreografias mesclam matrizes africanas, indígenas e europeias; os afoxés e blocos afro da Bahia, que desde os anos 1970 reivindicam explicitamente uma reafricanização da festa por meio de grupos como Ilê Aiyê e Olodum. Em cada canto do país, o carnaval assume feições próprias, sustentadas por uma mesma vontade inventiva.
Como lembra Luiz Antonio Simas, o carnaval que triunfou não foi o dos salões elitizados, mas o das ruas, das comunidades negras que, no pós-abolição, afirmaram um modo de estar junto que recusava a normatividade disciplinadora. No ato de carnavalizar, podemos identificar uma espécie de manifesto: a defesa de um Brasil possível, diverso, solidário, inventivo. Assim, como diz Simas, não fomos nós que inventamos o carnaval; foi o carnaval que inventou uma ideia de Brasil que talvez só exista plenamente quando o país se permite carnavalizar.
Esta exposição apresenta obras que dialogam com esse verbo, pensando-o enquanto método e força inventiva, atravessando tempos distintos para lembrar que carnavalizar sempre foi mais do que celebrar: é reorganizar o espaço, o corpo, o ritmo e o cotidiano por meio de uma inteligência popular sofisticada. Essa inteligência também se manifesta nas arquiteturas vernaculares aqui presentes, cujos princípios se aproximam dos modos operados pela festa. A construção improvisada que vira estrutura, a organicidade dos interiores, o trânsito entre dentro e fora: tudo encontra ressonância nas espacialidades que o carnaval cria.
Ao reunir artistas de gerações diversas, a exposição articula temporalidades, referências e repertórios que vão da reflexão sobre o corpo coletivo à investigação das materialidades que sustentam tanto a festa quanto a vida em periferias urbanas. Na obra de Hélio Oiticica, por exemplo, a experiência com a Mangueira e a inteligência comunitária das escolas de samba foi decisiva para os parangolés. A mostra também amplia a compreensão de que carnaval não é apenas samba. A festa é atravessada por uma constelação de sonoridades afro-diaspóricas: pulsos que se entrelaçam ao funk, ao hip-hop e aos graves eletrônicos das festas de rua contemporâneas.
No centro disso tudo, há a dimensão do assombro evocada por Simas: um modo de percepção que permite se espantar com o cotidiano, que reconhece beleza no encontro fortuito, na voz que irrompe na rua, na escola de samba que entra na avenida como quem abre um mundo. É um assombro semelhante ao que o curador camaronês Bonaventure Ndikung identifica na arte ao afirmar que, mesmo em meio à violência, as pessoas cantam e dançam porque isso lhes devolve a certeza de que ainda estão vivas. A festa, nesse sentido, é uma tecnologia brasileira para espantar a tristeza.
Ao reunir trabalhos que se debruçam sobre essas camadas, esta exposição afirma que carnavalizar é uma forma de conhecimento. Um método que reorganiza o sensível, rompe dicotomias, redimensiona o coletivo e projeta futuros. Aqui, distintos tempos históricos se encontram para recordar que a festa nunca esteve dissociada da luta, e que a luta sem festa perde sua vitalidade. Carnavalizar, portanto, é insistir que política e poética podem andar juntas, e que talvez esse seja o gesto mais radical que a arte pode oferecer.
— Daniela Avellar
Obras

Carnaval, 1940
óleo sobre tela
59 x 83 cm

Mestre Didi
Sem título, s.d.
nervura de palmeira, couro, búzios e palha da costa
106 x 45 x 14 cm

Mari Ra
Colagem, 2025
óleo sobre tela
20 x 30cm

Leda Catunda
Novo Eldorado, 2021
acrílica e tecido sobre tela
228 x 263 cm

O soldado, 2000
acrílica sobre tela
100,3 x 82,6 cm

Miriam Inez da Silva
Circo, 1982
óleo sobre madeira
39,1 x 50,4 cm

Alan Weber
Sem título, da série Dia de Baile, 2026
lona
32,5 x 28,5 cm

Maria Auxiliadora
Sem título, 1971
cartão colado em eucatex
26 X 33 cm

Sem título, s.d.
óleo sobre tela
50 x 61 cm

Parangolé P4 Capa 1, 1964/1986
técnica mista sobre tecidos
150 x 62 x 17 cm

Vik Muniz
João I, da série Pictures of Magazine, 2003
jato de tinta de pigmento mineral sobre papel
102 x 130 cm
Ed.: 1/6

Wallace Pato
Fim de tarde, da série Alto Subúrbio, 2020
óleo sobre tela
162,4 x 125,8 cm
Vistas da exposição



















